Guia do Ceramista Sustentável

O que é este guia? E porque você é a parte mais importante dele.

Nos últimos anos surgiram muitos desafios para reduzir o impacto ambiental do Studioneves. Desde então, aprendemos muito. Foi dessa aprendizagem que nasceu este guia, que tenta traduzir de uma forma prática a nossa relação com a sustentabilidade. Mas essa é a nossa história. Qual é a sua? Quais são suas ideias? Como você pode ajudar outros ceramistas? Como você pode nos ajudar? Como você pode connosco transformar o mundo?

Este é um guia colaborativo, sempre em fase beta. E o que isso quer dizer? Que é a sua colaboração que alimenta as informações aqui reunidas. Quanto mais gente participar, melhor para o planeta.

Por favor, fique à vontade para usar o espaço abaixo e contribuir com todos os ceramistas do mundo. Juntos somos mais fortes.

Porquê colocar em prática as dicas deste guia no seu ateliê?

Nós, do Studioneves, somos apenas um ateliê de cerâmica. Sozinhos nunca vamos conseguir um resultado relevante para o planeta. Mas acreditamos que quanto mais gente pensar e agir da mesma forma, maior será o impacto na criação de um mundo melhor.

Diagnóstico

O primeiro passo para melhorar os processos no seu ateliê é realizar um diagnóstico para entender seu contexto atual.

Em seguida, é preciso definir os objetivos e metas para reduzir os seus impactos.

No Studioneves, fazemos anualmente um relatório do nosso consumo de água, eletricidade, plástico, embalagens, além de calcular a emissão de CO2 e descartes. O objetivo é monitorar se estamos a ir na direção certa e a atingir os nossos objetivos.

Pode ver aqui os nossos relatórios e metas.

Reaproveitamento

Notámos que o nosso alto consumo de água tratada era destinado maioritariamente para a limpeza das ferramentas, limpeza geral do ateliê e para a produção dos vidrados. Foi quando percebemos que a água da chuva poderia ser reaproveitada e utilizada para esses fins.

Nesse sentido instalámos um reservatório de água pluvial e trouxemos a sua torneira para o tanque principal do ateliê. Hoje em dia usamos essa água da chuva para quase tudo, gerando assim benefícios tanto económicos como ambientais.

Emissões de carbono

Sim, é verdade. O maior impacto ambiental de um ateliê de cerâmica é a emissão de carbono na atmosfera devido às queimas.

Quer o seu forno seja a lenha, gás ou elétrico, grande parte da energia acabará por vir de combustíveis fósseis que produzem gases de efeito estufa e contribuem para o aquecimento global.

No Studioneves, instalámos painéis solares fotovoltaicos que abastecem todos os nossos equipamentos elétricos e de iluminação com energia 100% renovável.

E o mais importante: esses painéis fornecem energia para um forno elétrico de 500 litros, que é capaz de produzir peças praticamente 100% descarbonizadas. *

*Estudos mostram que a cada 100g de CaCO (Carbonato de Calcio) presentes na peça, 45g de CO2 são emitidos na atmosfera durante a queima. Mas que é um valor pouco relevante diante dos 5,34Kg de CO2 emitidos pelo gás GPL necessários para queimar 1 prato.

Descarte

Se já visitou uma grande fábrica de cerâmica, vai surpreender-se com a quantidade de descartes que elas produzem.

No Studioneves, o nosso volume de descartes é bastante baixo, mas mesmo assim procuramos dar-lhe sempre o destino correto.

Em Portugal contatámos a BIOVIA para o encaminhamento dos resíduos de argila. Eles explicaram-nos que não é possível enviar descartes diretamente para uma cimenteira por se tratar de uma quantidade muito pequena de resíduos. Por outro lado, descobrimos que esses resíduos podem ser classificados como R12 (armazenamento temporário para valorização energética ou material). Assim, podemos garantir o seu destino em conjunto com outros resíduos da mesma classificação.

Promover direitos

Dentro do ateliê é preciso respeitar e promover a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Assédio, discriminação, coerção, abuso, violência ou exploração são totalmente proibidos. Qualquer violação aos direitos humanos terá tolerância zero.

Conhecer os Fornecedores

Também é preciso ter cuidado para que as empresas que vendem as suas matérias-primas não violem esses direitos e partilhem da mesma consciência.

Por exemplo, conhecer os seus fornecedores é muito importante. Cultivar um relacionamento com os seus fabricantes de argila e fornecedores de matéria prima é, por si só, uma maneira de ter conhecimento e acesso aos melhores insumos do mercado. E visitá-los também é necessário para entender as suas práticas e condutas.

Conheça seus fornecedores e os seus empregados de perto. Caráter e consciência são fundamentais, pois só assim será possível escolher o melhor material para o seu produto e os melhores parceiros para a sua empresa. As responsabilidades são compartilhadas e conhecer a origem da sua matéria-prima é fundamental.

Podemos afirmar que as nossas maiores vantagens competitivas nasceram de visitas aos fornecedores. Transforme isso num hábito.

Respeito ao direito trabalhista

Dentro do ateliê também é preciso respeitar os direitos trabalhistas e rejeitar qualquer forma de trabalho forçado e infantil.

Salário digno

Acreditamos existirem duas maneiras de pensar em um “salário mínimo”: o salário mínimo por lei e o salário digno.

O chamado salário digno garante o equilíbrio entre a vida profissional, familiar e pessoal – e este varia de acordo com o custo de vida em cada país, entre outros fatores.

Em alguns países o salário digno é oficial. E embora no Brasil e em Portugal ainda não sejam instituídos, são possíveis de serem calculados.* Em Portugal, por exemplo, o salário mínimo em 2020 foi de 665 euros, mas o salário digno gira em torno de 790 euros.

E este deveria ser o ponto de partida. Pois salário digno permite que o funcionário seja mais feliz e, portanto, trabalhe melhor. Pense nisso: todos saímos a ganhar.

*https://www.dn.pt/dinheiro/estudo-sobre-rendimento-adequado-revela-limiar-da-pobreza-subestimado-8612647.html

Igualdade

No Studioneves, compomos a nossa diretoria de maneira igualitária e diversa, com os sócios Gabi Neves e Alex Hell.

Já na equipa temos mais mulheres do que homens. Abraçamos a diversidade, e o resultado por mérito, é um número maior de mulheres do que de homens no ateliê.

Treinamento e segurança

No Studioneves, todos os funcionários têm formação de Segurança no Trabalho. Em 2021, duas formações muito importantes entraram no currículo de toda a equipa: formação contra incêndios, em parceria com os bombeiros, e formação de finanças pessoais. Em outras palavras, queremos proporcionar conhecimento a todos os nossos funcionários, para que eles possam ter cada vez mais segurança em todos os aspectos da sua vida. Ter conhecimento sobre os assuntos relacionados a crédito, por exemplo, é fundamental para a saúde emocional das pessoas.

Prevenir é melhor que remediar

No Studioneves, todos os trabalhadores fazem o exame de saúde admissional, além de exames de saúde anual preventivos. Todos os trabalhadores são incentivados a praticar exercício físico e a manter uma boa alimentação. Além disso, todos na nossa equipa têm seguro de saúde e odontológico particular.

Carta de princípios

Um ponto de partida para melhorar a gestão da sua empresa de cerâmica é adotar um Código de Conduta. Em Portugal recomendamos que entre em contato com a BCSD (info@bcsdportugal.org) para obter informações sobre o tema. Não importa o tamanho e o compromisso atual da sua empresa. O importante é começar.

Leia a Carta de Princípios, adote os seus princípios e seja uma empresa melhor para todo o mundo. Você, a sua comunidade e o planeta só têm a ganhar. Para os amigos de outras partes do mundo, clique aqui para ver o nosso Código de Conduta.

Divulgue

Use as redes sociais para divulgar a evolução dos seus compromissos, objetivos e metas. Não tenha medo de errar nem de expor os seus erros. Percebemos que as pessoas se envolvem mais quando percebem que nós também falhamos.

Convide outros ceramistas, assuma sua parte da responsabilidade.

Este é um trabalho em equipa, onde só conseguiremos ser mais fortes se estivermos juntos. Isso é para o bem das pessoas, da sociedade e do nosso planeta.

Este é apenas um guia básico, que nasceu da nossa aprendizagem dos últimos anos.

Mas, como dissémos, não é definitivo. Existem muitas outras ações possíveis para reduzir o seu impacto. Queremos sempre descobrir novas maneiras e melhorar junto consigo, colega ceramista.

Este é apenas um guia BÁSICO, que nasceu dos nossos aprendizados dos últimos anos.

Mas não é definitivo, pois existem muitas outras ações possíveis de se fazer para reduzir o seu impacto.

Leu e ficou com dúvidas?
Manda um email pra gente! contato@studioneves.com

Leu e tem outras ideias?
Ajude a nossa comunidade escrevendo seus comentários logo abaixo.

12 Comments

  • Verificar se a mineradora possui licença ambiental também acaba incentivando as mudanças e adequações a um mercado mais sustentável. São documentos que devem ser disponibilizados ao cliente com facilidade, e somando com a manutenção do relacionamento, o trabalho de ambos fica cada vez melhor.

  • Alem da licença ambiental, é fundamental garantir que não haja trabalho infantil ou análogo à escravidão nas mineradoras. Garantir, também, que os trabalhadores dos fornecedores e do próprio atelier utilizem EPIs adequados à atividade. Quanto aos esmaltes, banir utilização de metais danosos à saúde e ao meio ambiente. Caso haja a utilização de moldes de gesso, os mesmos devem ter um descarte responsável após o término do seu ciclo de vida (e as sobras também). Embalagens mais orgânicas e / ou recicláveis (ex caixa de ovo) são mais indicadas do que materiais mais nobres.

  • Primeiro lugar parabéns e obrigada pela iniciativa da criação e divulgação deste espaço.
    Abaixo uma pequena colaboração, pensando em pequenos ateliês.

    Descarte e reaproveitamento:
    Mesmo um ateliê pequeno e sem muitos recursos pode fazer ações importantes.
    Ter um balde (ou reservatório) com tampa para resíduos de argila provenientes de sobras do processo de trabalho.
    Lavar pincéis e ferramentas em um balde e colocar esta água no local de resíduos de argila e esmalte.
    A argila será única, não adequada para grande produção, mas pode (após ser testada com uma amostra no forno) servir para fazer uma escultura, usar para aulas, ou pequena tiragem de peças.
    Caso guarde o esmalte em balde separado poderá formar um esmalte novo, testar para conhecer a cor, alterar se necessário e novamente fazer algo exclusivo ou para fins didáticos.

    Sistema simples de captação dos resíduos de tanque sob o mesmo, com baldes de recolhimento da argila também são importantes.

    Baldes ou reservatórios bem cobertos para evitar criar mosquitos!

    Direitos laborais – treinamento e segurança.
    Conhecimento do processo cerâmico e de possíveis toxicidades e riscos de exposição a sílica. Um funcionário consciente saberá a importância de usar EPI’S adequados. E nós ceramistas devemos usar e fornecer estes equipamentos de proteção individual.
    Não permitir que alguém lixe uma cerâmica ou pulverize esmalte sem a devida proteção (máscaras adequadas) e em ambiente com equipamentos adequados e arejado.

  • Lucia Eid diz:

    Gostaria de sugerir 1 ação
    Temos muita dificuldade em encontrar mao de obra minimamente especializada,.
    Tenho formado muitos ceramistas ao longo de 25 anos de profissão incluindo nesta formação, alguns garotos e garotas que moram em regiões desprovidas de qualquer oportunidade, se tornando ótimos funcionários, em outras palavras, vamos dar oportunidade de conhecimento para jovens que, com um pouco de ajuda, conseguem sim ter uma profissão tao valorizada e respeitada como hoje vemos no nosso mercado
    Obrigado
    Lucia Eid. Olaria Paulistana

  • Sandra Tacão diz:

    Parabéns e obrigada por este espaço de partilha! O vosso site já tem bastante informação e sensibiliza de forma clara para as questões ambientais. Não irei acrescentar muito mais…
    Deixo algumas notas:
    – Incentivar produtores/espaços que comercializam vidrados a produzirem/venderem produtos que tenham um menor impacto ambiental;
    – Divulgar/dar a conhecer neste espaço as marcas com produtos para cerâmica com o menor impacto ambiental;
    – Realizar pontualmente ateliers de cerâmica para escolas/adulto de forma a dar a conhecer boas práticas ambientais;
    – Informar/divulgar sobre boas práticas laborais relacionadas com a saúde dos trabalhadores;
    – Utilizar meios de transporte mais ecológicos;
    – Reciclar embalagens;
    – Reaproveitar vidros.
    Sandra Tacão

  • Parabéns pela iniciativa! Que possamos fazer dela um guia para os ceramistas.
    Um ponto importante: 
    Aqui no Brasil não temos  um espaço ou uma empresa que recicle as sobras de argila dos ceramistas.
    Sei que muitos ceramistas fazem a reciclagem, porém sei que é um trabalho árduo e muitos ateliês acabam acumulando muito material e não fazendo o reaproveitamento. Optando até por descartar essas argilas.
    Empresas que vendem argilas deveriam fazer uma ação ou se prontificar a tomar de volta essas sobras. Pois  suas estruturas de trabalho , máquinas e mão de obra, que são superiores as dos ateliês, poderiam fazer  reciclagem dessas massas. Elas poderiam comprar dos ceramistas essas sobras ou trocar por massas já beneficiadas.
    Fora que abre um novo mercado de grande potencial e gera empregos.
    Obrigado .
    Att. CÉSAR AUGUSTO BARBOSA

  • Parabenizo-os pela iniciativa.

    Acredito que será muito útil. Aqui já fazemos uso de algumas práticas, mas ainda há muito a implementar. O guia dá uma luz para seguir em frente.

    Mas o mais importante é ter consciência desde o início, dos impactos causados ao ambiente e como diminuir ou zerar os danos.
    E como foi colocado, uma andorinha não faz verão.

    Mais adiante, um manual básico das boas práticas para quem está iniciando. Como Sandra Tacão e Lucia Lombardi colocaram muito bem.

    Intercâmbio de idéias e fortalecimento da gestão.

    Cursos sazonais aliando aulas de cerâmica com consciência ecológica prática.

    Lika Täkahashi

  • Anna Cris Fialho - Fatto di Argilla diz:

    Parabéns pela iniciativa e agradeço a oportunidade de participar desse momento do Studio Neves.

    Algumas ideias para contribuir:

    1- Acho muito importante garantir que seus fornecedores sigam a mesma rigidez de princípios com que o ateliê está construindo sua imagem. Então, além da visita, é importante exigir desses fornecedores documentações que assegurem atuação idônea, cumprimento de direitos trabalhistas e respeito às normas ambientais.

    2- No que for possível, reunir materiais reutilizáveis para doação a entidades sem fins lucrativos, que atuam na capacitação de novos profissionais da área. Também contratar como ajudantes aprendizes pessoas carentes, que teriam dificuldades em construir uma profissão e, além da remuneração devida pela função, dar treinamento completo e aprofundado em alguma área da cerâmica, seja em modelagens, esmaltes, argilas, etc. isso certamente, no longo prazo, ajudará a valorizar ainda mais a profissão de ceramista e o desenvolvimento social de muitas famílias.

    3- Quanto aos direitos trabalhistas, além do salário digno, é igualmente relevante para a saúde física, familiar e mental, assegurar que os funcionários cumpram a jornada de trabalho legal, não ultrapassando os limites previstos. No Brasil, muitas empresas acabam por extrapolar esse limite. Isso deve ser foco também para a validação de fornecedores.

    4- no Código de Conduta sugiro anexar uma relação dos principais materiais e processos, utilizados no ateliê, que podem causar danos à saúde e quais os respectivos EPIs necessários.

  • Parabéns pela iniciativa queridos!
    Minha sugestão é a educação e informação de todos os envolvidos no processo, desde colaboradores até clientes, sobre o material que utilizamos. Apesar de abundante, é uma matéria prima que não se renova a curto prazo e a escolha consciente desse material é de extrema importância. Utilizamos materia prima que provém de processos de mineração, corantes que contém materiais tóxicos encapsulados, que são seguros para o usuário final, mas nocivo aos envolvidos na extração e preparo desse material. Não se trata aqui de ser purista, mas de garantir informação sobre a procedência desses materiais e sempre que possível evitá-los, além de claro, como ja mencionado, proporcionar a reciclagem de todos os materiais que utilizamos, pq sim, felizmente tudo que utilizamos no ateliê pode ser reciclado! 🙂 Vida longa a iniciativas como essas!

  • Gabi e Alex, parabéns pela iniciativa de levantar a pauta e dividir conhecimento. Assim vamos caminhando, evoluindo nossa prática e nossa relação com ela. Investir na formação de profissionais têm sido uma das prioridades do ateliê durante todos esses anos. 

Que possamos estreitar relações, trocar sempre e deixar um legado para as próximas gerações de ceramistas.

  • Luiza diz:

    Primeiramente obrigada pelo convite de particupar e fazer parte de um movimento tão importante. Despertando a todos aqueles que ainda não tem essa consciência. E unindo forças com todos que já estão nesse caminho. Esperamos que , os que fazem cerâmica e os que produzem a nossa materia prima chegando até a ponta final ; nosso consumidor. Valeu Alex e Gabi. Só sucesso!!! Abraços
    Atte: Luiza Avila

  • Marília Figueiredo diz:

    Studio Neves só tem boas idéia!!! Penso que o descarte responsável é de grande valia. E também usar recursos renováveis como o ☀️ Sol para energia elétrica. Ou o vento, ou as ondas do mar… todos os recursos que a natureza nos dá! Ajudar a formar profissionais para fazer cerâmica também é muito necessário . Precisamos da beleza e utilidade das lindas peças do Studio Neves!!!!

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